A região Nordeste do Brasil é o cenário de um projeto dinâmico
de pesquisa participativa no qual agricultores, pesquisadores
e extensionistas compartilham seus conhecimentos com um objetivo
comun.: melhorar a agricultura, e especialmente, a relacionada
com a exploração da cultura da mandioca.
A mandioca, planta
originária da América do Sul, ocupa o nono lugar no mundo entre os alimentos mais ricos
em calorias e nas regiões tropicais é o quarto, depois do arroz, a cana de açúcar e o
milho.
No Brasil, a região Nordeste tem a maior área plantada com mandioca,
porém, a produtividade é muito baixa devido a qualidade dos solos e ao clima
imprevisível. Para atingir produções aceitáveis, os produtores precisam dispor de
áreas maiores de terra e investir em mais insumos, que é muito difícil pois, as
comunidades rurais desta região são consideradas as mais pobres do pais.
Além dos fatores climáticos, a mandioca deve também suportar o ataque
das pragas e doenças, e enfrentar os preços baixos do mercado como conseqüência da
saturação dos mercados tradicionais de farinha de mesa e a falta de mercados
alternativos.
É neste contexto que está sendo implementado o projeto de pesquisa e
desenvolvimento Proteção Fitossanitária da Mandioca (PROFISMA). O projeto está sediado
em Cruz das Almas (Bahia), onde funciona o Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e
Fruticultura Tropical (CNPMF),da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA),
que divide com o Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), de Colômbia, a
responsabilidade técnica e administrativa do projeto. Colaboram também com a execução
do projeto as empresas Estaduais de Pesquisa e Extensão Rural de quatro Estados do
Nordeste do Brasil: Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba.
O projeto é financiado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) que também financia atividades paralelas em quatro países da
África em parceria com o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), da
Nigéria.
"É um trabalho complexo, porque organizamos desde a pesquisa
básica, no laboratório, até oferecer a nova tecnologia ao produtor, através da
pesquisa participativa", salienta o Dr. Stephen Lapointe, um entomólogo do CIAT que
coordena o componente internacional do projeto.
Os resultados positivos começam a ser notados em varias áreas. Por
exemplo, no controle biológico de pragas: foram trazidos da Colômbia e Venezuela, os
inimigos naturais da Cochonilha da mandioca e distribuídos pela região produtora de
mandioca onde já estão começando a exercer o controle. Aumentam-se assim as
possibilidades de frear a ação desta praga que é responsável por perdas milionárias.
Porem, é opinião de consenso, entre os participantes do Projeto, que os
principais resultados estão sendo obtidos com o estabelecimento de uma rede de Comitês
de Pesquisa Agrícola Local, conhecidos como COPAL, formados por produtores que recebem
assessoria dos pesquisadores e extensionistas.
"Nos trabalhos de pesquisa a nível de produtor, já não é o
científico que decide sozinho o que vai ser feito, agora, o produtor participa, e
conjuntamente com os pesquisadores e os extensionistas, determinam as atividades de
pesquisa, as quais estão relacionadas com os problemas agrícolas priorizados pela
comunidade. Nos anima ver o entusiasmo com que o produtor tem assumido esta nova
responsabilidade", avalia o Dr. Aristoteles Pires de Matos, fitopatólogo do CNPMF
responsável pela Coordenação Nacional do projeto.
Existem na atualidade 26 Comitês nos quatro Estados onde o projeto está
operando. Cada um coordena as atividades de pesquisa agrícola, contando com o apoio dos
outros agricultores da comunidade e com a assistência técnica dos pesquisadores e
extensionistas. Cada COPAL está formado por quatro agricultores e envolve entre 30 e 100
pessoas. Para sua implementação, foi adaptada às condições do Nordeste uma
metodologia que o CIAT vem implementando com êxito na Colômbia e outros países da
América Latina.
O trabalho inicia-se com um diagnóstico participativo realizado pela
própria comunidade, com a colaboração e orientação dos pesquisadores e
extensionistas. Uma vez que são identificados os principais problemas, suas causas e
conseqüências, e as ações que os produtores têm implementado no passado para
resolvê-los, determinam-se as possíveis alternativas.
Os COPAL's ajudam a planejar, implementar, administrar e avaliar ensaios
baseados em opções tecnológicas disponíveis, que tenham potencial para resolver os
problemas priorizados. Posteriormente, os resultados são analisados e divulgados entre os
demais produtores da comunidade, outros Comitês e outras comunidades interessadas.
"Anteriormente tínhamos muitas tecnologias porém os produtores
tinham poucos conhecimentos delas. Agora, eles estão mais perto da pesquisa e ficam
entusiasmados em comprovar que são capazes de ajudar a resolver os problemas",
afirma Italo Delalíbera, entomólogo brasileiro vinculado ao projeto através do CNPMF.
Para o Diagnóstico Participativo inicial foram contatadas 75 comunidades,
que envolveram a participação de 2.565 produtores, 35% dos quais eram mulheres.
"Foi identificada uma ampla gama de problemas, e os produtores priorizaram os
principais.
Foi assim como o PROFISMA passou de um projeto com enfoque fitossanitário
para um projeto multidisciplinar. As opiniões e percepções dos produtores sobre seus
próprios problemas e prioridades chamaram à atenção dos pesquisadores e extensionistas
sobre outros aspectos importantes do sistema agrícola como a fertilidade dos solos e a
qualidade das sementes", diz Bernardo Ospina, um engenheiro agrícola do CIAT,
responsável pelas ações de capacitação do projeto.
"Agora estamos falando a mesma linguagem", afirma Sandra Lucia
de Carvalho, subgerente de pesquisa da Empresa Bahiana de Desenvolvimento Agrícola
(EBDA), que forma parte do grupo de 60 pesquisadores e extensionistas capacitados pelo
projeto no uso de métodos participativos de pesquisa e transferência de tecnologia.
A função dos extensionistas e pesquisadores é a de apoiar os produtores
no proceso de experimentar como as alternativas tecnológicas disponíveis. "Nos
convertemos em facilitadores do processo no qual o agricultor decide, desenvolve suas
experiências e tira conclusões", afirma Carlos Dias, engenheiro agrônomo,
extensionista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Ceará
(EMATERCE).
"Os COPAL's tem aberto novos horizontes para trabalhar no setor
rural", informa Paulo dos Santos, extensionista da Empresa de Assistência Técnica
do Estado da Paraíba (EMATER-PB).
Os pesquisadores e extensionistas que colaboram com PROFISMA têm passado
por um programa de capacitação em métodos participativos de pesquisa e transferência
de tecnologia que envolve três fases: 1) diagnósticos participativos, 2) planejamento de
ensaios com produtores e 3) avaliação dos ensaios. "Cada fase tem um trabalho de
campo, o que permite aos técnicos aprender fazendo. Depois, retornam aos seus Estados e
repassam estas técnicas para os produtores", afirma Ospina, que se mostra satisfeito
com os resultados obtidos até agora.
Ao longo destes últimos meses os pesquisadores e extensionistas têm
trabalhando arduamente para consolidar esta nascente "cultura de
experimentação" entre as comunidades rurais. As atividades realizam-se num ambiente
de amizade, que motiva a trabalhar. "Os técnicos ouvem a gente e a gente ouve os
técnicos. Estamos entre amigos", afirma Jose Texeira de Jesus, um veterano
agricultor de 71 anos, residente na Comunidade Cadete, Cruz das Almas, que tem mais de
meio século plantando mandioca.
Ele, como muitos outros agricultores do Nordeste do Brasil, jamais
imaginaram que com seus conhecimentos ancestrais e seu grande espírito de colaboração
iriam converter-se em um importante recurso para ajudar as comunidades a resolver seus
problemas agrícolas, adaptando as novas tecnologias às suas condições ambientais,
econômicas e sociais.
"Só nos resta aguardar que estas atitudes e disposições dos
agricultores sejam mantidas logo após o fim das fases previstas para o projeto. Lograr
este compromisso por parte das instituições é outro dos nossos objetivos", conclui
Lapointe.
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